Instituto Fernandes | Investigação Neuropsicológica de Alta Complexidade
Instituto Fernandes
INSTITUTO FERNANDES Neuropsicologia das Neurodivergências
INSTITUTO FERNANDES
Acervo Científico Investigação 12 Min Leitura

Existe mesmo autismo em mulheres?

Entenda como a história sombria da psiquiatria em Viena e os vieses sociais esconderam o diagnóstico de milhares de mulheres que hoje buscam respostas.

Instituto Fernandes
24 Jun 2026

Leitor de Acessibilidade

Ouvir Artigo

Velocidade

Muitas mulheres adultas que finalmente recebem o diagnóstico formal de Transtorno do Espectro Autista passam por um doloroso, confuso e solitário período de luto existencial profundo. Elas encontram pela primeira vez em toda a sua linha biográfica uma explicação orgânica e biológica palpável para as imensas dificuldades que enfrentaram durante toda a vida prática, interacional e social. Mas diante desse alívio tardio e da validação científica do seu sofrimento, uma pergunta angustiante, incômoda e absolutamente inevitável se instala na mente dessas pacientes e de suas exaustas famílias, questionando de forma visceral como absolutamente ninguém conseguiu enxergar esses sinais tão evidentes muito antes, durante os longos e formativos anos da infância e do período escolar primário.

A resposta que tem ganhado uma força desproporcional nas redes sociais e que é repetida por uma parcela de profissionais menos criteriosos na atualidade afirma categoricamente que as garotas passaram despercebidas simplesmente porque possuíam uma habilidade inata e perfeita de camuflagem social (o chamado masking) já aos quatro ou cinco anos de idade. Essa explicação, contudo, é um grave reducionismo clínico que tenta atribuir à biologia infantil uma formidável capacidade de planejamento estratégico, de manipulação de imagem e de autocontrole contínuo das próprias emoções. A neurociência do desenvolvimento nos prova que o córtex pré-frontal de uma criança de quatro anos, área responsável pelas funções executivas e pela inibição de impulsos, está em um estágio incrivelmente imaturo de maturação anatômica e metabólica, sendo fisicamente e biologicamente incapaz de sustentar uma máscara social consciente de forma ininterrupta durante as horas exaustivas da escola. A criança pequena é essencialmente, fisiologicamente e neurologicamente espontânea por natureza, e acaba expressando as suas barreiras estruturais de reciprocidade socioemocional de forma direta, caótica e visível em seus comportamentos diários e lúdicos.

A verdade incômoda para os defensores do masking absoluto na primeira infância é que se houvesse um deficit de comunicação inato e estrutural de base, ele teria sido inevitavelmente detectado por pais, psicopedagogos e educadores atentos na rotina escolar de longa duração. Para afastar de vez os mitos digitais e os achismos de internet, uma revisão sistemática robusta publicada pelas cientistas Tayla Chellew e Josephine Barbaro, no ano de 2024, demonstrou clinicamente que as manifestações primárias de atipia em meninas e meninos abaixo dos seis anos de idade são incrivelmente semelhantes. Os dados mostram que as dificuldades de contato visual, a resistência a mudanças de rotina e o hiperfoco em objetos específicos aparecem de forma clara em ambos os sexos durante a primeira infância. Isso desmente de forma inegável e metodológica a tese frágil e perigosa de que o autismo feminino permanece invisível apenas devido a uma camuflagem social perfeitamente arquitetada desde o berço. A verdadeira raiz dessa invisibilidade cruel, sistêmica e duradoura é muito mais profunda, estrutural e assustadora do que uma simples timidez camuflada, possuindo uma origem estritamente histórica, médica e institucional que corrompeu a nossa capacidade de enxergar as mulheres.

Para entender exatamente por que as meninas foram sumariamente excluídas dos manuais oficiais de psiquiatria e por que você passou décadas sem um diagnóstico, precisamos abandonar os achismos do presente, voltar no tempo e desembarcar na cidade de Viena no exato e sombrio ano de 1944. Ao formular o seu artigo acadêmico de habilitação para a docência e imortalizar o seu nome na história da psiquiatria, o pediatra austríaco Hans Asperger baseou as suas conclusões sobre a condição que ele chamava de psicopatia autista em uma amostra clínica composta única e exclusivamente por quatro meninos. Fritz, Harro, Ernst e Hellmuth foram as únicas crianças observadas com real atenção e detalhamento clínico pelo médico para ditar todas as regras de comportamento do que o mundo científico viria a conhecer décadas depois como o espectro autista. A ausência total de meninas nesse estudo inaugural de impacto mundial não foi um mero acaso amostral ou uma coincidência acadêmica innocente, mas o reflexo aterrador de uma época em que a clínica médica operava totalmente submissa às rígidas, letais e cruéis leis de higiene racial e utilitarismo do Terceiro Reich alemão.

O historiador austríaco Herwig Czech, em suas revelações chocantes publicadas em 2018, provou que os médicos daquele período sombrio tinham o papel oficial, contratual e estatal de classificar as crianças estritamente de acordo com o seu valor produtivo para a comunidade e para as engrenagens de guerra do regime. Foi nesse cenário de eugenia e sobrevivência brutal que o perfil clássico do pequeno professor hiper lógico (o menino fascinado por números, mecânica e regras inquebráveis) foi usado de forma estratégica e desesperada pela clínica de Asperger para convencer as impiedosas autoridades de que aqueles garotos possuíam talentos úteis que compensavam as suas enormes deficiências de interação afetiva. Essa benevolência médica seletiva e salvadora se limitava apenas e rigorosamente a garotos do sexo masculino que apresentavam funções cognitivas extremamente preservadas e interesses obsessivos por áreas técnicas de valor tático para a sociedade da época.

O destino macabro das crianças que não apresentavam uma inteligência matemática produtiva para a máquina estatal, ou que possuíam perfis atípicos mais brandos, empáticos ou não verbais, era tragicamente fatal. A história documenta com frieza burocrática que Hans Asperger participou ativamente desse sistema macabro de triagem clínica seletiva, assinando pessoalmente cartas de transferência que encaminhavam pacientes considerados sem potencial produtivo diretamente para a clínica de internação infantil Am Spiegelgrund em Viena. Este local macabro funcionava como um dos maiores centros de eutanásia infantil do regime nacional socialista, um pavilhão de extermínio onde centenas de crianças com deficiências ou atipias comportamentais foram mortas de forma deliberada através de fome calculada e injeções letais de barbitúricos. Um dos casos mais contundentes e amplamente documentados pela história desse extermínio higienista foi o da pequena Herta Schreiber, uma menina de apenas dois anos e meio de idade que apresentava sérios atrasos motores e deficiência intelectual severa, que perdeu a vida na clínica poucos meses após ser friamente avaliada e despachada para a morte pela caneta da avaliação psiquiátrica de Asperger.

Esse extermínio violento, estrutural e focado na utilidade de perfis atípicos, somado à seleção minuciosa e exclusiva de meninos geniais para os estudos clínicos de base, ajudou a sepultar completamente a identificação e a validação da neurodivergência em meninas por longas e perdidas décadas. A medicina ocidental herdeira desse trauma herdou também uma régua clínica puramente masculina e utilitarista que buscava de forma cega em todos os consultórios psiquiátricos apenas o fenótipo exato do garoto excêntrico com inteligência lógica e matemática acima da média, isolando a categoria diagnóstica do autismo em um viés de gênero estrutural, intransigente e castrador. Quando a psiquiatra britânica Lorna Wing finalmente resgatou os esquecidos textos originais austríacos em 1981 e cunhou de forma oficial o termo Síndrome de Asperger para o mundo anglófono, a lacuna de gênero e a invisibilidade feminina já estavam profundamente enraizadas, disseminadas e institucionalizadas nas cartilhas de todas as faculdades de medicina do mundo todo.

A comunidade clínica mundial continuou a procurar de forma estatisticamente viciada apenas as características literais observáveis naqueles garotos originais e excêntricos de Viena. E essa cegueira diagnóstica metodológica foi alimentada de forma avassaladora pelo primeiro dos grandes fatores que ocultam o espectro feminino (as expectativas tradicionais e arcaicas de comportamento que a sociedade patriarcal sempre impôs rigorosamente às mulheres). Uma menina atípica em idade escolar que sofre de exaustão sensorial profunda diante do barulho do recreio, que recusa o contato físico não solicitado e que permanece absolutamente silenciosa e paralisada no seu canto da sala de aula é frequentemente normalizada e até perversamente recompensada pelo sistema escolar. Ela é rotulada de forma positiva pelos professores e coordenadores como uma aluna exemplarmente tímida, infinitamente dócil e extremamente bem comportada, uma leitura social completamente enviesada que invisibiliza por completo as reais dores, a ansiedade excruciante e as gigantescas dificuldades de interação daquela criança em sofrimento solitário.

Esse primeiro viés de submissão esperada agrava-se de forma dramática pelo segundo fator de ocultamento, que reside na própria natureza temática dos interesses restritos e repetitivos (o famoso hiperfoco) observados no cotidiano clínico dessas pacientes neurodivergentes. Enquanto a rigidez mental e o foco quase maníaco de um garoto autista costumam se direcionar de forma clássica para catálogos estatísticos de trens, manuais de dinossauros ou a física dos motores de combustão (temas que chamam a atenção imediata da família e do pediatra para algo fora do comum), as meninas no espectro frequentemente canalizam o seu hiperfoco primário para a literatura fantástica, para as novelas adolescentes, para a cultura pop, ou para o cuidado obsessivo e meticuloso com animais de estimação. O nível de rigidez, a intensidade da fixação e o isolamento social gerados por esse interesse são biologicamente idênticos aos dos meninos, mas como a sociedade e a família julgam o conteúdo desses temas como perfeitamente comuns, aceitáveis ou fofos para a idade da garota, o sintoma clínico gritante passa completamente ileso e camuflado pelo radar da investigação médica.

A sobreposição sombria desses dois vieses culturais opressores nos leva inexoravelmente ao terceiro e mais contundente fator do atraso diagnóstico massivo nas mulheres, que foi o completo, absoluto e imperdoável vácuo de conhecimento técnico e de atualização científica dos profissionais de saúde mental que atuaram de forma hegemônica nas últimas décadas do século vinte. Precisamos exercer uma profunda justiça histórica e clínica ao compreender que os manuais internacionais de psiquiatria utilizados religiosamente nas décadas de setenta, oitenta e noventa descreviam o espectro do autismo de forma extremamente estreita, patológica e rígida, atrelando a condição quase que exclusivamente a quadros raros, severos e paralisantes de grande atraso intelectual global e de total ausência de fala articulada. Se uma menina ou uma mulher chegava ao consultório médico apresentando um discurso minimamente funcional, contato visual razoável (mesmo que doloroso para ela) e um boletim escolar mediano ou superior, a mera hipótese diagnóstica de Transtorno do Espectro Autista sequer ousava entrar na lista de possibilidades do raciocínio médico da época.

Diante das inevitáveis crises agudas de exaustão, dos colapsos emocionais e da profunda fobia social dessas pacientes adultas e adolescentes que buscavam ajuda desesperada, os profissionais de saúde mental recorriam de forma lógica e limitada aos diagnósticos mais comuns, populares e aceitos em sua prática diária da época. O resultado trágico e documentado dessa miopia acadêmica generalizada foi a criação de uma verdadeira e silenciosa legião de milhares de mulheres geniais que saíram dos consultórios psiquiátricos sendo erroneamente e perigosamente rotuladas ao longo de toda a vida com fobia social crônica intransponível, timidez patológica, mutismo seletivo grave, transtornos de ansiedade generalizada resistentes a remédios ou até mesmo com estigmatizantes transtornos complexos de personalidade (como o Transtorno de Personalidade Borderline). O grande erro de diagnóstico do nosso passado recente não foi de forma alguma culpa de crianças habilidosas que enganaram o sistema ao se camuflarem de propósito com maestria de atores, mas derivou cruelmente de uma ciência médica que era estruturalmente, historicamente e academicamente cega para a existência do perfil feminino neurodivergente.

Compreender com profundidade técnica toda essa dolorosa, longa e complexa jornada histórica e social nos mostra de forma irrefutável que atribuir o diagnóstico tardio na vida adulta única e exclusivamente à capacidade de masking infantil é um equívoco conceitual extremamente raso e perigoso para a clínica moderna. A camuflagem social (o masking) existe sim, é documentada exaustivamente pela neuropsicologia contemporânea e funciona como um exaustivo, doloroso e complexo recurso adaptativo de sobrevivência na vida do jovem ou do adulto para ocultar déficits internos e evitar a rejeição sumária de terceiros em ambientes corporativos e acadêmicos. Contudo, essa habilidade madura não pode ser retroativamente usada como um grande coringa argumentativo para justificar uma infância inteira sem rastros, sem queixas e sem sofrimentos mapeáveis. Romper de forma definitiva com os mitos digitais rasos do TikTok e resgatar a verdadeira precisão metodológica investigativa é o maior ato de respeito ético e moral que a ciência e a sociedade podem ter para validar, de uma vez por todas, a longa história de dor, invalidação e invisibilidade de milhares de mulheres que realmente vivenciam o autismo na própria pele. O diagnóstico preciso e correto não é apenas um papel carimbado, é a única e definitiva ferramenta capaz de libertar o indivíduo do peso esmagador da culpa e entregar a ele um amparo, uma compreensão e um direcionamento de vida real amparado pela verdadeira ciência clínica.

Referências Clínicas & Científicas

AMERICAN PSYCHIATRIC ASSOCIATION. Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais DSM. Washington: APA, 1980 a 2013. ASPERGER, Hans. Die Autistischen Psychopathen im Kindesalter. Archiv für Psychiatrie und Nervenkrankheiten, v. 117, p. 76 a 136, 1944. CHELLEW, Tayla et al. The early childhood signs of autism in females: a systematic review. Review Journal of Autism and Developmental Disorders, v. 11, p. 249-264, 2024. CZECH, Herwig. Hans Asperger, National Socialism, and race hygiene in Nazi-era Vienna. Molecular Autism, v. 9, n. 29, 2018. WING, Lorna. Asperger's syndrome: a clinical account. Psychological Medicine, v. 11, n. 1, p. 115 a 129, 1981.

A clareza protege a sua biologia.

Compartilhe o conhecimento biológico com quem precisa de respostas reais.